14 de dez de 2016

AFFRONT – Angry Voices (Álbum)


2016
Nacional

Tracklist:

1. Scum of the World
2. Angry Voices
3. Affront
4. Conflicts
5. Terra Sem Males (Guerra Guaranítica)
6. Mestre Barro
7. Religions Cancer
8. Under Siege
9. Carved in Stone
10. WarTime Conspiracy
11. Echoes of the Insanity
12. Under Siege (Participação especial: Marcelo Pompeu)


Banda:

M. Mictian – Baixo, vocais
R. Rassan – Guitarras 
Jedy Najay – Bateria 


Contatos:



Nota:

Originalidade: 9
Composição: 10
Produção: 10

10/10


Texto: Marcos “Big Daddy” Garcia


Um dos acontecimentos mais tristes dentro do Metal é quando uma banda que está na ativa e cheia de fôlego encerra atividades ou mesmo entra em um hiato. A impressão que temos que falta algo. Mas ao mesmo tempo, esse tipo de situação acaba gerando novas bandas, pois uma vez músico de Metal, sempre o será. É um vício que se adquire com os anos, e digamos de passagem, “Angry Voices”, do trio carioca AFFRONT, reflete tal vício e é um disco que vicia, e que nos chega quase que aos 45 minutos do segundo tempo de 2016.

O que o trio nos oferece é algo que o rótulo Death/Thrash Metal não consegue traduzir em sua plenitude. Mas ao mesmo tempo, não se pode deixar de falar que a experiência individual de seus integrantes torna “Angry Voices” musicalmente diversificado, com muito peso, pegada moderna (pois a banda desobedece completamente o padrão Death/Thrash Old School comum que vemos no Brasil), ótimas melodias evidenciadas em algumas partes, e um impacto sonoro absurdo. E em termos de diversidade, vemos isso especialmente em “Mestres do Barro” (onde algumas percussões e toques de Baião estão bem claros aos ouvidos).

Esse assassinato sonoro foi produzido por M. Mictian e R. Rassan, e percebe-se que houve uma preocupação estética em soar agressivo e pesado, mas com timbres fortes, mas sempre mantendo a música clara. Sim, é bruto e ríspido, mas com muita qualidade.

Mestre Vitalino
Na arte da capa, vemos mais um trabalho ótimo de Marcelo Vasco (da PR2 Design), conhecido por seus trabalhos para capas de bandas como SLAYER, HATEBREED, BORKNAGAR, SOULFLY, DARK FUNERAL, entre outros. Óbvio que o conceito do mórbido e a dualidade bem e mal de cada ser humano são apresentados de uma forma elegante e sinistra.

“Angry Voices” nasceu em berço de ouro, escorado na experiência de seus membros devido à passagens por bandas como UNEARTHLY, IMAGO MORTIS, AINUR, entre outros. Sua sonoridade vem revolucionar o conceito Death/Thrash Metal de nosso país, e mesmo do mundo. As canções são bem arranjadas, a técnica musical está em ótimo nível, e o disco se torna indispensável aos fãs de Metal extremo. E em termos líricos, temos os temas que versam contra corrupção política (como em “Sum of the World” e “Affront”), o ódio alimentado por políticos e religiosos (reparem bem na letra de “Angry Voices”), o destrato contra os menos favorecidos (tema de “Under Siege”), mas há espaço para conscientização cultural, como a idéia por trás da instrumental “Terra Sem Males (Guerra Guaranítica)” ou em “Mestre do Barro”, que é uma homenagem ao belo trabalho de Vitalino Pereira dos Santos, conhecido como Mestre Vitalino, cuja arte nas esculturas de barro é conhecida em todo mundo (menos pela maioria do povo do nosso país, infelizmente), e exposta em museus daqui e do exterior.

Embora seja um disco de estréia, “Angry Voices” é um disco perfeito, com todas as faixas niveladas por alto. É um disco feito com a intenção de destruir pescoços e causar danos aos tímpanos dos menos acostumados, ou seja, o melhor tipo de música possível.

“Scum of the World” – Uma golfada brutal e agressiva, mas ao mesmo tempo, com um bom gosto refinado em termos de arranjos. Reparem como as mudanças de ritmo são ótimas, mostrando a coesão de baixo e bateria na criação de uma base rítmica firme e bruta.

“Angry Voices” – Aqui, o ritmo continua rápido, mas ao mesmo tempo, é mais simples e direta. O que a banda cria em termos de riffs sonoros de primeira é algo abusivo.

“Affront” – Segue a mesma linha de “Angry Voices”, sendo mais abrasiva devido ao trabalho ótimo dos bumbos e a rispidez das guitarras. Mas reparem como o ritmo que aparentemente é simples nos mostra arranjos de primeira.

“Conflicts” – O foco é em um ritmo mais cadenciado e azedo no início, mas que logo a velocidade aparece, sem ser algo extremado. Muito boa a técnica da bateria mais uma vez, e as guitarras mostram alguns toques nada convencionais, basta reparar nas melodias dos solos.

“Terra Sem Males (Guerra Guaranítica)” – É uma instrumental que é bem focada no baixo, e cuja idéia é uma reflexão sobre as Guerras Guaraníticas, ou seja, a oposição armada dos índios Guaranis aos conquistadores espanhóis e portugueses no século 16.

“Mestre do Barro” – É onde a diversidade musical do AFFRONT está mais evidenciada. Reparem nos toques regionais que surgem no meio da brutalidade da música. É nela também que vemos surgir muita influência do Death/Black Metal à lá DISSECTION em muitas partes, mas alguns toques de Hardcore surgem aqui e ali. Chega a ser uma exibição de gala os riffs da guitarra e os solos, bem como a técnica da bateria. E interessante é que o timbre dos vocais, esse meio termos entre rasgado e esganiçado nos permite compreender a letra claramente.

“Religions Cancer” – Adornada com algumas partes mais intensas e azedas, é a mais tradicional em termos de Thrash/Death Metal, embora o lado moderno da personalidade da banda possa brincar com os sentidos do ouvinte.

“Under Siege” – É uma das primeiras faixas do disco a ser exibida aos fãs, justamente a que possui vídeo clipe oficial. Os arranjos de guitarra são excelentes mais uma vez, mas ao mesmo tempo, o trabalho de baixo e bateria é sólido em todos os momentos da canção.

“Carved in Stone” – É a faixa mais cadenciada e arrastada de todo disco, com alguns momentos pontuais onde a velocidade cresce. Reparem como baixo e bateria mais uma vez estão excelentes, bem como os vocais são ótimos.

“WarTime Conspiracy” – Outra que é bem rápida, com uma simplicidade técnica muito interessante. E como a guitarra mostra algumas partes melódicas que quase não são percebidas pelos mais apressados.

“Echoes of the Insanity” – Mais uma instrumental, agora de baixo e violão, onde a técnica das seis cordas é impressionante devido aos toques de Flamenco que são perceptíveis.

“Under Siege” – Esta versão tem um impacto sonoro ainda mais absurdo que a normal em alguns momentos, mas temos a participação especial de Marcelo Pompeu, vocalista do KORZUS, que deu um toque pessoal à canção devido aos timbres rasgados que lhe são tão peculiares.

“Angry Voices” é um disco para ser assimilado bem lentamente devido aos toques musicais diferenciados. Mas alguém aí está com pressa?

Outro que vai para a lista dos melhores do ano, sem sombra de dúvidas!




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