11 de set de 2015

Extinguindo fronteiras e limites – Entrevista com o MOONSPELL


Por Marcos “Big Daddy” Garcia


Mesmo após muito tempo na estrada, em que muitos se acomodam sobre fórmulas estabilizadas de seu próprio trabalho, existem aqueles que não conseguem viver em expandir fronteiras. E este é o caso do quinteto lusitano MOONSPELL, que mesmo de causar revoluções no meio do Metal com discos como “Wolfheart” e “Irreligious”, sempre nos brinda com novos desafios, indo além dos limites estilísticos. E “Extinct” não foge a esta regra, pois mais uma vez, nos desafiam a desvendar esta belíssima jóia preciosa.

Aproveitando que eles estão se preparando para vir à América do Sul mais uma vez para divulgar o CD, bem como para se apresentarem no próximo Rock in Rio, tivemos o prazer de entrevistar o vocalista do grupo, Fernando Ribeiro.


BD: Saudações, e antes de tudo, gostaria de agradecer por nos conceder esta entrevista. Nossa primeira pergunta é sobre o novo CD, “Extinct”: depois de “Night Eternal” e “Alpha Noir”, que tiveram um enfoque mais pesado e agressivo, “Extinct” tem um lado um pouco mais acessível e requintado, quase que um resgate da época de “Irreligious” e “Sin/Pecado”. Óbvio que isso foi espontâneo, as músicas deixam isso bem evidente por elas mesma, mas como se sentiram ao compor o CD? E como se deu o processo de criação dele como um todo?

Fernando Ribeiro: Foi um processo bastante espontâneo e se revestiu de uma urgência emocional muito maior que os discos citados que foram feitos com mais tempo e com um conceito mais certo nas nossas cabeças. Os Ingleses contam a anedota de um homem que entra num bar e...O "Extinct" foi um pouco assim. Eu cheguei ao nosso estúdio de coração pesado pela vida, por acontecimentos que relacionei com a extinção e a banda embarcou logo nesse turbilhão. Durante nove meses praticamente não fizemos mais nada ou pensámos em mais nada. Um tempo de gestação curioso, intenso mas também romântico no sentido de estar a criar uma obra completamente refém das emoções do momento, sem olhar a modas, sentidos ou direções. Tocámos muito como banda, todos juntos e não largámos as canções até todas terem um toque especial que reflectisse em pleno as letras, a sua ambiguidade, ficando a música um pouco mais redentora e melodiosa. Não tentámos resgatar ou reciclar formulas, apenas seguimos esse lead emocional que resultou num disco mais goth, com momentos mais memoráveis, menos agressivo mas, para nós, mais desafiante e emotivo.

Fernando Ribeiro
BD: “Extinct” tem a produção assinada por Jens Brogen, que tem se tornado um produtor bem reconhecido nos últimos anos. Como se deu a escolha dele para a posição, e como foi trabalhar com ele? E por falar em produção, vocês tiveram o Waldemar Sorychta com vocês muitas vezes em todos esses anos nas gravações, logo, por que ele esteve ausente desta vez?

Fernando: Foi excelente. O Jens se tornou muito íntimo do processo, nem podia ser de outra forma e ajudou a organizar as peças. Ele se envolveu muito neste disco exatamente porque para ele era a oportunidade perfeita de fazer algo mais negro, mais pessoal, e o trabalho fluiu. Ele conferiu a dose certa de critica e entusiasmo para a banda e queremos muito repetir com ele numa ocasião futura. O Waldemar foi muito importante na definição do nosso som e tem de lhe ser dado crédito por ter feito os melhores discos de Metal Europeu com bandas como Tiamat, The Gathering, nós entre outros lançamentos fundamentais dos anos noventa.Faz tempo que ele não trabalha connosco, mas não tem uma razão em concreto, tínhamos a ideia de trabalhar com o Jens e decidimos mudar. As pessoas sabem como gostamos de novidade. 


Ricardo Amorim
BD: Ainda sobre “Extinct”: qual é o conceito, a idéia principal, para as letras do CD, e como pensaram no nome? 

Fernando: Existem duas dimensões que se completam e que trouxeram uma proximidade maior entre elas para fazer um conceito mais forte. Eu comecei a escrever as letras usando a extinção como uma metafora para aqueles que se vão da nossa vida, fisica e reomanticamente; para o que morre em nós para dar lugar a outras coisas; para os sítios aos quais iamos buscar uma energia que já não está lá. Na extinção mais alargada, ao nivel biotico, da natureza, encontrei um pano de fundo bem trágico mas também esperançoso no sentido que a extinção se pode tornar em especiação, i.e, um preparação da espécie que se adequa mais ao ambiente e penso que todos nós passamos por isso, um fim que encerra um outro tipo de continuidade mesmo que exista uma espécie de fatalidade. Falando com autores e cientistas do meio, reconhecemos ainda que existem vários grupos lutando contra a extinção de espécies naturais e essa coragem e nobreza inspirou-nos. o "Extinct" não é um disco de lamento, de chorar pelos cantos, de ser o garoto gótico sem causa. É um disco sobre imperfeição, limpar as lágrimas e fazer o que é preciso. É uma história da hipotese de sobreviver à escuridão das nossas vidas e do nosso tempo. 


BD: Ainda sobre as letras, há uns anos atrás, lendo uma entrevista com você, Fernando, da época de “The Antidote”, lembro-me você mencionar a influência do escritor Fernando Pessoa em suas letras. Pronto, foi o suficiente para eu ir ler alguma coisa do famoso poeta naquela época (risos). E mesmo entre elementos de Thelema, mitologias e ocultismo, há certo requinte do Romantismo poético. Podemos considerar, então, que esta influência de Fernando Pessoa continua presente nas letras do MOONSPELL?

Pedro Paixão
Fernando: Sempre. Para um Português, Pessoa é um modo de vida, de estar. De curiosidade, de solidão, de desassossego e a influência dele não se limitou ao tema "Opium", ou ao "Antidote". É mais vasta, mais profunda. 


BD: Já que falamos de suas letras, digamos que a temática do MOONSPELL como um todo requer certo trabalho dos fãs para uma compreensão mais ampla do que dizem nelas. Sim, já reparei que vocês possuem muito a dizer nelas, que as letras não estão ali como mero complemento para a música em si. De certa forma, acham que são promotores da cultura, não só do lado mitológico, mas no todo?

Fernando: Existe uma intenção de nos representarmos numa totalidade: o lunar mas também o solar. Penso que a maioria das letras no Heavy e no Gótico se banalizaram como complemento das música e se trocou a originalidade por algo menos profundo, mais fácil que decalca de temas como guerra (principalmente a Segunda Grande Guerra), fantasia em segunda mão inspirada por Martin ou Tolkien e claro as famosas letras de tomar cerveja, de falar do Metal. Isso nunca me atraiu e tornei-me numa pessoa que leva muito a sério o conteúdo lirico pois ele é a chave para entender uma banda e atestar se o que se procura é o entretenimento puro ou como voce diz e bem algo mais cultural. Não sei se procuramos promover algo em particular ou não, mas tentamos elevar os nossos textos a um estatuto mais poético, com vida para além da música. 


BD: Um fator interessante sobre “Extinct” é justamente as opiniões que ele despertou. Enquanto alguns preferem aquele lado mais agressivo e se sentiram decepcionados, outros adoraram o resultado final. Como se sentem com essa dualidade de sentimentos na recepção? E como a crítica especializada recebeu o CD?

Aires Pereira
Fernando: Não sentimos nada em especial. Estamos mais que habituados a não sermos nada consensuais e a ter de lutar pelo nosso lugar sempre com as nossas mudanças e imprevisibilidade musical e lirica. O consenso as pessoas guardam mais para as bandas Escandinavas ou Alemãs que nunca saem da zona de conforto e parecem mais que prestam um serviço do que fazem arte. A decepção dos fãs também é sempre algo por demais debatido e eu desprezo essa convicção de que ‘compramos’ o disco, queremos que ele seja assim ou assado. A independência é algo que cultivamos muito no aspecto criativo e temos pago o preço disso. Curiosamente, o "Extinct" foi um disco que arrebatou muita gente e até existe alguma consensualidade o que é surpreendente para nós rsrsrsrsrs... As criticas foram na sua grande parte excelentes e houve pouca campanha contra nós nas redes sociais. A qualidade prevaleceu. 


BD: Falemos um pouco do passado: até a chegada de “Wolfheart”, pouco se sabia da cena portuguesa de Metal. Mas depois dele, surgiram mais e mais bandas de seu país. Como se sentem sendo os pioneiros da cena lusitana?

Fernando: Nós não somos os pioneiros do Metal em Portugal. Existe toda uma história antes de nós, desde finais de 70, com grupos como Tarantula, Ibéria, Sacred Sin, RAMP. O que nós fizemos foi uma rutura com o espirito quase derrotista e local das bandas lusitanas. Queríamos mais, mais originalidade, não queriamos ser os Maiden locais ou os Metallica do bairro. Queriamos uma banda diferente e acabou por resultar contra todas as expectativas dos players da cena Portuguesa da altura. 


BD: Nesses mais de 20 anos dentro da cena mundial, vocês viveram muitas experiências, altos e baixos como todas as bandas passam. Se pudessem mudar algo, o que seria? 

Miguel Gaspar
Fernando: Fica dificil responder, porque acredito sinceramente que tudo o que aconteceu teve um lugar na nossa história como grupo. Mas, assim de cabeça. deveríamos ter nos livrado do nosso primeiro baixista mais cedo pois ele prejudicou muito a banda e gostaria de ter tido um produtor diferente no "Sin/Pecado". 


BD: Uma pergunta que muitos fãs fazem sempre: existe alguma possibilidade de algum dia, um novo trabalho do DÆMONARCH venha a ser lançado? Sim, pois “Hermeticum” teve uma boa aceitação até onde sabemos…

Fernando: Não me parece. DÆMONARCH sempre foi anunciado como coisa única, não me interessava perseguir esse conteúdo mais oculto e satânico porque cresci enquanto homem e claro fui descobrindo outras formas de estar, pensar, compor. Sei que foi um sucesso algo inesperado mas pelo menos ficou o testemunho de um disco bem épico e black metal que continua a fascinar muita alma negra. 


BD: Ah, sim: qual foi a motivação maior para o lançamento de “Under Satanæ”? 

Fernando: Essa motivação surgiu logo depois de concluirmos o "Under the Moonspell" em 1994. É um disco que nos deixou um amargo de boca porque apesar da sua originalidade e importância na cena, nós não conseguíamos, na altura, como músicos, tocar e representar em condições as nossas ideias. Por isso sempre achei que era um disco com o seu charme luciferino mas gostei muito de lhe poder pegar e fazer alguma justiça em 2007. 


BD: Não sei se conhecem, mas existe um tributo ao MOONSPELL feito todo com bandas brasileiras, “Em Nome do Medo - A Brazilian Tribute to Moonspell”. Chegaram a ouvir? E o que acharam da iniciativa? Existe alguma versão favorita na sua opinião?

Fernando: Sim, claro. Ficámos honrados pela homenagem e até surpreendidos pelo facto de a cena Underground Brasileira nos ter dado essa importância já que não somos, de todo, um nome influente no Brasil. Ficou um tributo muito equilibrado, que deu para ver o nosso universo bem diferente musical, do black ao death ao gótico. Destaco as versões de "Magdalene" do Ravenland; "Lickanthrope" por Raiser; a do Silent Cry, sem desprimor para o resto dos convidados claro!


BD: Voltando aos tempos atuais: o primeiro Single de divulgação de “Extinct” foi a música “The Last of Us”. Como se deu a escolha justamente dela para ser o Single de divulgação? E como foi que surgiu a idéia para o vídeo de “Extinct”? Poderia nos contar um pouco do conceito por trás dele? Aliás, permitam-me o elogio: o resultado final ficou ótimo.

Fernando: Nada de especial. Foi instinto. E risco pois é um tema bem mais rock que metal e que poderia induzir o fã em erro mas resultou super bem. Ainda hoje ao vivo se nota esse amor ao primeiro tema divulgado. O video do "Extinct" é sobre imperfeição e como ela é posta de parte no nosso mundo. O director Victor Castro teve essa noção e meteu um grupo opressor de mulheres caçando marginais, pessoas diferentes. Todo o video tem uma estética bem apocaliptica que é um universo que me fascina e tem essa influência dos filmes série B sobre cidades abandonadas. É um video que faz pensar e que inverte um pouco a lógica do mundo e nos confronta com um espelho da nossa reação perante a imperfeição e o domínio. 


BD: Finalmente, o MOONSPELL está voltando ao Brasil, dessa vez, para uma série de shows e também vão se apresentar no Rock in Rio. Como se sentem nessa volta, e quais as suas expectativas?

Fernando: São sempre boas. Apesar de não sermos um nome que encha ainda salas no Brasil sentimos uma ligação profunda, inexplicável com os nossos fãs Brasileiros que nos apoiam desde a primeira ida. A nossa estreia no Rio e ainda por cima no Rock in Rio é algo que nos deixa super orgulhosos pois assistíamos pela televisão aos momentos mágicos do Queen, Iron Maiden, Guns n Roses e agora, ainda que de forma bem mais modesta, estamos lá a respirar esse ar por mérito da nossa carreira. Também me fascinam ainda mais os concertos em sala, em clubes pois esse é o nosso elemento por excelência e visitar Curitiba pela primeira vez é fantástico, pois ouvi grandes maravilhas sobre essas cidade e claro o regresso a Rio Grande do Sul e a S.Paulo onde já vivemos momentos extraordinários dentro e fora do palco. Vai ser bom, espero que os fãs compareçam


BD: Agradeço demais pela entrevista, e por favor, deixe sua mensagem aos nossos leitores.

Fernando: A mensagem é mais um convite para ajudar a preservar a nossa existência como banda, dando sentido ao que fazemos. Não é fácil para uma banda Portuguesa levar a sua música seja onde for mas queremos muito impressionar neste tour e todo faremos para isso. Ficar em casa não é opção. Prepare to be extinct!

"Purgatorial" de Fernando Ribeiro, lançado no Brasil


O Metal Samsara gostaria de agradecer à Miky Ruta (Fame Enterprises) e a Luciano Piantonni (Lanciare - Assessoria de Imprensa, Comunicação & Entretenimento) por ter tornado esta entrevista possível.


Veja os vídeos de "Extinct" e "The Last of Us":