1 de mai de 2016

JUDAS PRIEST - Turbo (Clássicos)


1986
CBS
Nacional

Texto: Marcos "Big Daddy" Garcia


Falar do JUDAS PRIEST é sempre algo bem trabalhoso. Sob muitos aspectos, é uma banda cuja importância para o Metal é a mesma do BLACK SABBATH, de quem são conterrâneos. Mas uma coisa não se pode negar: o quinteto inglês é a banda que ou erra completamente ou acerta no alvo. Nada deles é meio termo, e mesmo assim, somente o supracitado quarteto e o MOTORHEAD podem gozar da mesma fama de "bandas mais importantes para o desenvolvimento do Heavy Metal".

Mas o que levaria a banda a criar um disco como "Turbo", de 1986, tido como seu pior momento na carreira por muitos?

Vamos por partes.

É preciso entender que estamos falando do meio da década de 80, quando as bandas mais antigas já eram ameaçadas pela nova geração. Bandas como METALLICA, SLAYER, MEGADETH, TESTAMENT, ANTHRAX tinham uma sólida base de fãs com seu som mais agressivo e moderno. E muitos deixavam as bandas mais antigas de lado, preferindo aderir às sonoridades modernas de então.

Outro ponto a ser citado é a necessidade constante de se reinventar, justamente porque as bandas precisavam expandir fronteiras de sua música. Óbvio que a mentalidade atual é de respeitar o passado dos monstros sagrados, mas verdade seja dita: o Santo Graal que MOTORHEAD e AC/DC haviam encontrado não era para todos. E tocar as mesmas músicas, o mesmo estilo, todas as noites por um ano de tournée deve ser uma experiência estafante para qualquer um.

Ponto final: o JUDAS PRIEST, como seus contemporâneos, já haviam experimentado o néctar do sucesso comercial, pois estavam em ascensão desde "Killing Machine" de 1978 (lançado nos EUA como "Hell Bent for Leather"), "British Steel" de 1980, e "Screaming for Vengeance" de 1982, onde eles chegaram ao status de gigante. Nem mesmo "Point of Entry" de 1981 (com uma visão mais melodiosa e orientação comercial) pôde os tirar desse crescendo, mas "Defenders of the Faith" de 1984 não chegou aos pés (em termos de vendagem) do que seu antecessor, e isso, aos olhos da gravadora, sempre gera problemas. Na época, era de praxe as gravadoras grandes desejarem que suas bandas vendessem mais discos, o que acarretaria em maiores investimentos.

Mas o que "Turbo" tem de tão destoante assim?

Mais uma vez, o quinteto de Birmingham flertou com o Hard Rock, mudou o tema de suas letras, e mesmo o visual da banda nos palcos e fotos mudou. E isso causou muito mal diante dos olhos dos fãs mais radicais de Metal, que viviam às turras com os fãs do Hard Rock californiano. Além disso, o uso de guitarras sintetizadas foi o pano para manga para reclamações dos fãs mais extremistas (embora o IRON MAIDEN tenha usado o expediente em "Somewhere in Time" e "Seventh Son of a Seventh Son" e não gerou a mesma reação).


No fundo, o real problema de "Turbo" é seu direcionamento musical, por ser mais acessível e capaz de atingir novos fãs. Foi uma jogada bem ousada, mas infelizmente, o disco ficou marcado como o pior momento da carreira do quinteto.

A produção, mais uma vez, é de Tom Allom (que estava com a banda desde "Unleashed in the East", disco ao vivo de 1979), que conseguiu dar uma sonoridade mais moderna e limpa ao trabalho do quinteto. Tudo está em seu devido lugar, e os timbres dos instrumentos é muito bom (mesmo o uso das guitarras sintetizadas não destoou). A arte, mais uma vez, foi feita por Doug Johnson, mesmo artista que fez "Screaming for Vengeance" e "Defenders of the Faith", e já ilustra a nova orientação musical do grupo.

Individualmente, o quinteto estava mantendo a qualidade. Rob Halford havia se livrado das drogas e estava mostrando sua melhor forma nos vocais, assim como Glenn Tipton e K. K. Downing ainda ditavam as regras em termos de criatividade nas seis cordas, com bases e solos de primeira (os duelos de solos e duetos são uma marca registrada do grupo). Ian Hill continua sendo um ótimo baixista, sabendo manter a base sólida durante todas as músicas, e até alguns momentos mais técnicos. Mas o calcanhar de Aquiles do grupo, desde "British Steel", sempre foi a bateria quadrada de Dave Holland, com seu feijão com arroz simples e sempre dentro das regras. Um baterista perfeito para o AC/DC, mas nunca para o JUDAS PRIEST, e que em "Turbo", continuou seu "mais do mesmo" chato e repetitivo de sempre.

Em termos musicais, uma ouvida sem o preconceito e radicalismo pueril dos anos 80 (que deveria ter continuado por lá, mas que andam querendo trazer de volta nos últimos tempos, o que é um retrocesso mental), vemos que "Turbo" não chega a ser um clássico do grupo, mas de longe, é bem melhor que "Point of Entry" ou "Nostradamus".

"Turbo Lover" é uma música pesada e bem arranjada, com seus toques de Hard Rock e ótimo refrão (e se reparar direitinho, as guitarras da banda continuam excelentes), o peso pesado de "Locked In" e seus vocais excelentes (realmente, Rob está muito bem no disco inteiro) e um refrão bem envolvente, além de duetos de solos excelentes; a comercial "Parental Guindance" e a energética "Reckless" mostram-se dignas de serem músicas do JUDAS PRIEST e possuem todos os elementos que os fãs amam, apenas com uma roupagem mais comercial, o que não chega a ser um pecado. As outras são igualmente muito boas, mas estas se destacam.

Uma nova audição pode quebrar muitos conceitos antigos e colocar "Turbo" em uma colocação melhor no gosto dos fãs. Ele até merece, pois representa um lado diferente e criativo da música do JUDAS PRIEST.


Músicas:

1. Turbo Lover
2. Locked In
3. Private Property
4. Parental Guidance
5. Rock You All Around the World
6. Out in the Cold
7. Wild Nights, Hot & Crazy Days
8. Hot for Love
9. Reckless


Banda:


Rob Halford - Vocais
K. K. Downing - Guitarras
Glenn Tipton - Guitarras
Ian Hill - Baixo
Dave Holland - Bateria


Contatos: