24 de set de 2014

Resenha: Three Sixes - Know God, No Peace... (CD)

Universal Sign Records
Nota 10,0/10,0

Por Marcos "Big Daddy" Garcia


Quando se fala na Escola do Metal dos Estados Unidos, é bom se ter em mente que as bandas que surgem naquele país não são acomodadas sob modelos já bem estabelecidos. Longe disso, o que rege sempre a Escola Norte-Americana é o apego à melodia e técnica, mas ao mesmo tempo, a busca pela inovação, por uma sonoridade personalizada. Assim, podemos aferir que fazer música nos EUA é quase um processo de auto-conhecimento, de buscar a melhor forma de pôr para fora aquilo que carrega em seu eu em forma musical. E uma banda que faz isso de maneira excelente é o quarteto THREE SIXES, de Westminster (CA), que agora mostra suas garras em "Know God, No Peace...", um álbum fantástico e que é uma bela mostra do que uma banda calejada e com vontade de abrir novos caminhos pode fazer.

Antes de tudo, o som do quarteto é uma mistura explosiva entre Thrash Metal, Hardcore, influências do Metal Industrial e do Metal tradicional. Só que o produto final é um murro de agressividade desmedida, mas polida e bem planejada. O quarteto mostra claramente saber como equilibrar bem tais elementos, e é bom saber que aqui, não estarão lidando com algo convencional, bem distante disso. Vocais agressivos em tons normais muito bons, riffs de guitarra azedos e massivos (com solos bem pensados), baixo e bateria em um equilíbrio perfeito de técnica e pegada pesada. A banda não prioriza a técnica individual, mas busca focar nas músicas como um todo, e é justamente isso que abrilhanta seu trabalho, que se baseia principalmente em riffs envolventes e refrões de fácil assimilação

Produzido pelo próprio grupo em parceria com Marko Olson (onde este último ainda fez a engenharia sonora e a mixagem), a qualidade sonora das músicas está cristalina, com cada instrumento e detalhe aparecendo com a devida proporção e em seu lugar, mas ao mesmo tempo, a sonoridade é densa, abrasiva e pesada de doer os dentes. Ou seja, a produção sonora é perfeita.

A arte merece menção honrosa, pois se de um lado vemos a apresentação quase toda em tons de preto, é bom notar que temos um Digipack luxuoso de seis folhas, com todos os detalhes necessários, inclusive uma famosa citação de Albert Einstein "Eu não acredito em um Deus pessoal, nunca neguei isso, mas expressei de forma clara", que se incorpora muito claramente aos temas líricos do grupo. E o encarte, seguindo esta linha de pensamento, mostra uma imagem onde a religião, representada na figura estilizada de uma Maria de Nazaré, é ligada diretamente aos males que assolam nosso mundo (guerras, exploração das pessoas menos favorecidas, fome, corrupção, movimentos ativistas contra os direitos de outras pessoas, discriminação racial). Mas cuidado: as letras da banda narram de um ponto de vista meramente cético, e são protestos que abrangem vários aspectos ruins de nossa realidade que, no fundo, são alimentados pela religião, especialmente as de origem abraâmica (judaísmo, cristianismo e suas vertentes, e o islamismo).

Three Sixes
No aspecto musical o THREE SIXES realmente sabe trabalhar os aspectos de sua proposta musical de forma muito bem equilibrada, seja quando pegam mais pesado, rápido, cadenciado ou Industrial, mas sem extrapolar na técnica. Aqui, a música é impactante, pesada e agressiva, com arranjos muito bem pensados. E ainda temos o brilho de participações especiais: Kit Potamkin (pianos e teclados, além de vocais sampleados em "Unit 731" e "Know God, No Peace..."), Ron McGinnis (vocais em "Revelation"), Marko Olson (guitarra solo em "Revelation" e backing vocals no CD inteiro), 'Bloody' Mary Powers-Agnew (backing vocals em "Know God, No Peace..."), Freddy Contreras e Aleister Shiva (backing vocals no CD inteiro), Keith Dickenhofe (celo em "Know God, No Peace..." e "Where Eternity Starts"), Rachel Attarian (vocais sampleados de trás para frente em "Lead Winged Angel..."), e Suzy "Q" Calkins (narração e vocal sampleado em "Lead Winged Angel").

Em "Know God, No Peace...", as músicas são bem equilibradas, logo, não existem lá destaques. O CD é bom como um todo.

"Saviour" é uma introdução soturna de teclados e guitarras, com vocais sampleados e outros rasgados, que aclimata o ouvinte para a feroz e técnica "Lead Winged Angel" que abre com uma pegada bruta oriunda do Death Metal, que se alterna com momentos com vocais rasgados em tons normais, além de possuir um ótimo refrão. "Darkside" é mais amena e introspectiva, alternando vocais sussurrados com outros mais agressivos, e outros ainda no meio termo, além de um lindo toque de classe do piano, teclados soturnos e mais uma vez com excelente refrão (daqueles que se ouve e ficam na mente), e alguns riffs que lembram bastante a fase "Roots" do SEPULTURA. Mais rápida e agressiva é "Truth", com ótimo trabalho de baixo e bateria e um refrão mais cheio de influências do HC. Já "Arch Enemy" é cadenciada e abrasiva (ganhando mais velocidade próximo ao final e depois retornar aos tempos mais lentos), com excelente trabalhos nos riffs e vocais muito agressivos sem perder a noção de melodia, além de ótimos backing vocals. Em "Soul Destroyer", uma faixa muito ácida, temos o lado mais Industrial da banda bem exposto, um verdadeiro inferno de samplers e efeitos bem semelhante ao que o MINISTRY fazia no clássico "Mind is a Terrible Thing to Taste". Introduzida por riffs à lá SLAYER, "Kingdom of Lies" é mais dinâmica, com boa integração da base rítmica com o trabalho das guitarras. Com um andamento mais melódico e um jeito mais envolvente e acessível, vem "Hand of Hell", uma daquelas faixas dignas de louvor, com vocais muito bons (Damien sabe usar muito bem sua voz). Peso e cadência introduzem "Saint?", que ganha uma dinâmica de riffs muito ganchuda (que riffs!). Então, temos a surpresa de uma versão atualizada, agressiva e com toques de Metal Industrial para "Thunderstruck", do AC/DC, que ficou excelente nessa roupagem (reparem como os vocais de Damien seguem as mesmas nuances de Brian Johnson, mas sem imitá-lo). "Underground Celebrity" é outra com um toque mais acessível, com riffs brutos e de fácil assimilação. Em "Unit 731", temos uma canção mezzo cadenciada, mezzo veloz, com toques abrasivos de HC bem claros. Soturna e introspectiva é "Where Eternity Starts", bem climática e sinistra, com vocais sussurrados. "Revelation" é um misto de toques Industriais e peso, com uma narrativa de fundo que nos lembra bastante os pastores e padres televisivos, incitando a guerra e a intolerância, quase uma introdução para o encerramento com chave de ouro de "Know God, No Peace...", que se inicia sinistra com acordes de guitarras e efeitos eletrônicos, antes de virar uma torrente de agressividade e certo toque de melancolia, mas por ser uma faixa bem extensa (dura mais de 11 minutos), temos muitas variações de tempo e uma dinâmica perfeita entre vocais, baixo, bateria, guitarras e participações de backing vocals, pianos, teclados. É uma hecatombe em forma de música.

Definitivamente, o THREE SIXES é uma excelente revelação, e "Know God, No Peace..." é a pena e e o tinteiro para se escrever um Novo Testamento dentro do Metal mundial. 







Tracklist:

01. Saviour
02. Lead Winged Angel
03. Darkside
04. Truth
05. Arch Enemy
06. Soul Destroyer
07. Kingdom of Lies
08. Hand of Hell
09. Saint?
10. Thunderstruck
11. Underground Celebrity
12. Unit 731
13. Where Eternity Starts
14. Revelation
15. Know God, No Peace


Banda:

Damien – Vocais 
Killswitch – Guitarras, backing vocals 
Johnny – Baixo
Konnyaku – Bateria
Marko - Programação


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