24 de set de 2014

Resenha: Dead Kennedys - Fresh Fruit for Rotten Vegetables (CD)

Alternative Tentacles

Por Marcos "Big Daddy" Garcia


Quando se fala no lema DIY (Do It Yourself) ou no aspecto anarquista do Metal, é bom que lembremos que esses fatores são, antes de tudo, heranças do Punk e do HC, e mesmo com bandas que já tocavam no tema, como o próprio SEX PISTOLS já fazia em "God Save the Queen" e "Anarchy in the U.K.", ainda faltava inspirar atitude realmente coerente com o que se falava. E nisso, não adianta: o mestre e Godfather da coisa é mesmo o ácido e controverso quarteto DEAD KENNEDYS, de San Francisco, Califórnia. Atitude, ironia, agressividade e acidez (tanto musical quanto lírica) são elementos claros de sua musicalidade (que ainda incorporava elementos da Surf Music, do Rock Psicodélico do Garage Rock e do Rockabilly), e uma prova clara disso é seu primeiro disco, que completa esse ano 34 anos de lançamento, o impactante "Fresh Fruit for Rotten Vegetables".

O grupo é tão anarquista que ousou ter um nome que agredia a mítica família Kennedy, de onde saíram vários líderes políticos que, posteriormente, encontraram o final prematuro de suas vidas, e ainda mais em uma sociedade tão conservadora (por mais que o intento, nas palavras de Jello Biafra, vocalista do grupo, apenas simbolizasse o "fim do Sonho Americano"). Mas mesmo assim, o grupo sempre foi cercado de controvérsias, uma após a outra, como processos legais (por conta da capa do disco "Frankenchrist", em 1986), a célebre apresentação diante de um grupo de empresários da indústria musical (enquanto tantos outros hoje se arrastam em busca de um contrato com uma major), e por aí vai. Mas ao mesmo tempo, como não gostar dessa mistura de vocais cantados com ironia, guitarras com riffs forte, baixo e bateria roncando pesado? E tudo isso usando a tradicional fórmula dos três acordes, embora o DK (como é conhecido por seus fãs) não seja uma banda muito simplista. Mas é algo genial, cheio de garra e energia, inovador ao seu tempo.

Dead Kennedys
A produção, feita por Norm e East Bay Ray (guitarrista e fundador do grupo), com mixagem de Oliver DiCicco e masterização de Kevin Metcalfe e Paul Stubblebine, é aquilo que se espera de um disco de Punk/HC feito no esquema DIY na virada dos 70 para os 80: sujo, ríspido e bem abafada, onde os riffs da guitarra ficaram em baixo volume. Mas lembremos: estamos falando do final dos anos 70, quando recursos digitais e computacionais ainda não existiam, e gravar de forma independente era um processo bem caro. Mas é justamente nesta qualidade pobre que pulsa o coração da sonoridade do DEAD KENNEDYS, e mostra sua personalidade (ainda cito o fato que a banda se negou a assinar contrato com a Polydor Records, ou seja, não estavam minimamente dispostos a abrir mão daquilo que queriam). E acredito que, se tivesse acesso à tecnologia de hoje, prefeririam algo mais seco e que soasse ao vivo. A capa, uma foto de Judith Calson, retrata o confronto conhecido como "White Night Riots", ocorridos em 21/05/1979, devido à leve sentença dada ao Supervisor (que equivalente ao cargo de vereador no Brasil) Dan White devido aos assassinatos de George Moscone e Harvey Milk, este último o primeiro gay eleito para o cargo de Supervisor nos EUA (os assassinatos ocorreram em 27/11/1978), na prefeitura de San Francisco,e vejam bem: dois morreram, mas os alvos eram muitos. Ou seja, a própria capa já é um protesto contra a intolerância, a cara do que Jello Biafra iria propor nos anos vindouros em suas atividades paralelas à música. Ah, sim: a arte é de Winston Smith, Annie Horwood e do próprio Jello Biafra. Ainda sobre a capa, esta possui várias versões, logo, preferi usar neste review a clássica, mas façam uma busca na internet e se preparem.


Falar na música do DK é quase um "nada igual veio antes", pois embora influências do Rock'n'Roll em geral e do Punk Rock estejam bem presentes, a banda nunca foi muito acomodada em uma fórmula única, e sempre aglutinou outras nuances em sua música. O Punk/HC deles é dinâmico, instigante, e irá influenciar não só bandas do gênero, mas várias gerações do Metal, especialmente os estilos mais extremados.

Não, não é preciso falar mais do que já se falou das músicas de "Fresh Fruit for Rotten Vegetables", pois quase tudo já foi esgotado. Músicas como a irônica e melódica "Kill the Poor" (um embrião do que viria a ser a cena HC melódica do HC nos anos 80 e 90, com o jeitão irônico de Jello cantar muito bem entrosados com os riffs de Ray), a instigante (em termos musicais, por favor) "Drug Me", o hino "California Über Alles" (cozinha perfeita aqui. A letra versa sobre o então governador da Califórnia, Jerry Brown. E "Über Alles", em alemão, significa "acima de tudo", uma referência ao nazismo, logo, fica clara a alusão que Jello faz), e o clássico absoluto "Holiday in Cambodia" (outra canção extremamente envolvente. Uma referência clara às desgraças causadas pelo Khmer Vermelho no Camboja, e vemos citado claramente o nome de Pol Pot, Premier socialista de 1975 a 1979, que massacrou entre 1 a 3 milhões de mortes de cambojanos, em uma população estimada de 8 milhões. Entre os mortos, servidores públicos, militares, policiais, professores, vietnamitas, líderes cristãos e muçulmanos, pessoas da classe média e com boa formação escolar, ou seja, aparentemente foi algo sistemático).

34 anos depois, o disco continua soando tão atual como em sua época, seus temas ainda são bem atuais e contundentes. E em algumas versões do vinil, encontramos o bônus de "Too Drunk Too Fuck".

Ouça no volume mais alto, sem dó de seus vizinhos fãs de estilos mais populares!





Tracklist:

1. Kill the Poor
2. Forward to Death
3. When Ya Get Drafted
4. Let's Lynch the Landlord
5. Drug Me
6. Your Emotions
7. Chemical Warfare
8. Too Drunk to Fuck
9. California Über Alles
10. I Kill Children
11. Stealing People's Mail
12. Funland at the Beach
13. Ill in the Head
14. Holiday in Cambodia
15. Viva Las Vegas


Banda:

Jello Biafra – Vocais
East Bay Ray – Guitarras
Klaus Flouride – Baixo, backing vocals
Ted – Bateria
6025 – Guitarra base em "Ill in the Head"
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