22 de jun de 2017

MEGADETH - Rust in Peace (Álbum)


1990
Capitol Records
Nacional

Tracklist:

1. Holy Wars... The Punishment Due
2. Hangar 18
3. Take No Prisoners
4. Five Magics
5. Poison Was the Cure
6. Lucretia
7. Tornado of Souls
8. Dawn Patrol
9. Rust in Peace... Polaris


Banda:


Dave Mustaine - Vocais, guitarras
Marty Friedman - Guitarras, backing vocals
Dave Ellefson - Baixo, backing vocals
Nick Menza - Bateria


Contatos: 

Bandcamp:
Assessoria:


Texto: Marcos “Big Daddy” Garcia


O final dos anos 80 tinha uma atmosfera muito positiva. O fim do muro de Berlim, a queda do comunismo na Rússia e final do bloco socialista encerravam os 50 anos de guerra fria. Mas as tensões regionais em vários pontos ainda não permitiam que o mundo realmente estivesse em paz. A chegada da Guerra do Golfo, nos primeiros meses de 1991, levou o mundo a se questionar se outro conflito em escala global não iria aparecer.
Mas o misto de alívio e certa incerteza ajudaram o MEGADETH a lançar, enfim, sua obra-prima, seu disco definitivo, que seria usado como parâmetro de comparação com todos os discos que lançaram antes e todos que viriam no futuro: o clássico atemporal conhecido por “Rust in Peace”.

Nesta época, o MEGADETH era conhecido como um grupo de formação altamente instável, e mesmo pelo temperamento volátil de seu líder, Dave Mustaine. O disco anterior, “So Far... So Good... So What!” já havia catapultado o grupo para o mainstream. Mas a demissão sumária do guitarrista Jeff Young e do baterista Chuck Behler tiraram a banda da estrada, bem como jogaram dúvidas sobre o que o grupo faria. Dave, que não é nenhum pateta, colocou Nick Menza, técnico de Chuck, na bateria (uma ironia do destino, pois Chuck havia sido técnico de bateria de Gar Samuelson, seu antecessor), e após cogitar os nomes de Dimebag Darrel e Jeff Waters para a guitarra (sendo que ambos declinaram as ofertas, e houve boatos de que Slash havia sido convidado na época), ouviu “Dragon Kiss”, disco solo de Marty Friedman (que já tinha nome consolidado como um guitarrista soberbo por seu trabalho em bandas como HAWAII e CACOPHONY). Pronto: tudo que poderia dar errado foi cogitado (tanto por fãs como pela imprensa  da época), inclusive elo ego de Mustaine não aceitar um guitarrista melhor que ele na banda dele. Só que, como já se sabe, Dave Mustaine nunca foi muito de seguir o que pensam dele, e a formação não só vingou, mas foi o line-up mais estável que o quarteto teve.

“Rust in Peace” é um disco pesado, técnico e muito bem feito em todos os aspectos. Além da inspiração musical, o estilo musical de Marty caiu como uma luva para o grupo, bem como a técnica quase jazzística de Nick na bateria (chega a ser exagerado às vezes, mas sempre ótimo). O baixo pesado e vibrante de Dave Ellefson criou linhas rítmicas belíssimas, ajudando o “approach” mais técnico a ficar ainda mais elaborado, sem perder o peso. E tendo parceiros desse nível, finalmente toda a criatividade de Dave Mustaine pode se propagar para as canções, sem contar que o trabalho dele nas guitarras melhorou ainda mais e seus vocais estão em ótima forma, sempre com ótimos timbres.

Ou seja: “Rust in Peace” é o auge do amadurecimento musical do grupo até então.

Como de praxe na época, “Rust in Peace” mostra problemas na fase de produção. O produtor original é Mike Clink (que havia trabalhado com o GUNS N’ ROSES em “Appetite for Destruction” e com o UFO em “Strangers in the Night”), enquanto a mixagem é de Max Norman (que veio a trabalhar como produtor da banda no disco seguinte, “Countdown to Extinction”). Só que Cink estava envolvido com a produção de “Use Your Illusion I” e “Use Your Illusion II” do GUNS N’ ROSES, e conforme entrevistas posteriores de Dave Mustaine, ele, junto com Max e Micajah Ryan (engenheiro de som do disco) fizeram tudo. Seja lá o que for fato ou boato, a verdade é que na época, muitos críticos torceram o nariz para a sonoridade de “Rust in Peace”, alegando falta de peso. Só que peso é o que não falta ao disco, bem como a definição sonora é excelente, e as timbragens estão de primeira. Tudo em “Rust in Peace” soa perfeito e em seu devido lugar.

A arte da capa é um conceito de Dave Mustaine, que ganhou vida pelas mãos de Edward J. Repka, mais conhecido como Ed Repka. Na capa, está uma clara referência ao Single “Hangar 18”, ou seja, no controle às descobertas sobre vida extraterrestre estar nas mãos dos poderosos do mundo, representados por George H. W. Bush (então presidente dos EUA), o líder da União Soviética Mikhail Gorbachev, Richard von Weizsäcker (presidente da Alemanha Ocidental na época, e depois, presidente da Alemanha reunificada), o primeiro ministro japonês Toshiki Kaifu e o primeiro ministro inglês John Major, tendo no meio o mascote Vic Rattlehead em trajes políticos. É um claro indicativo ao conteúdo lírico azedo que se encontra no disco.

Maduro, extremamente técnico (beirando o Progressive Metal), com canções fortes e bem trabalhadas, solos mais longos e melodiosos, mas com bases rítmicas agressivas, “Rust in Peace” causou furor nos fãs e calou a boca dos detratores do grupo. E foi um disco que vendeu os tubos, justamente porque a improvável fusão de uma técnica mais apurada com a pegada pesada do grupo parecia não ser possível. Mas foi e é.

Um clássico como “Rust in Peace” toma de assalto o fã logo com a trabalhada, climática e furiosa “Holy Wars... The Punishment Due”, que começa com uma saraivada de riffs, seguida por um ataque rítmico de baixo e bateria intenso e muito técnico (Nick e Dave Eleffson se entenderam perfeitamente), fora os solos e temas de Dave e Marty, mais os vocais ácidos, quase profetizando a guerra vindoura no Oriente Médio. Já “Hangar 18” mergulha fundo em uma levada não tão acelerada e adornada por lindas partes de guitarras bem melodiosas e sua temática referenciando a manutenção do conhecimento de aliens pelos EUA na famosa Área 51. Outra saraivada de violência musical é “Take No Prisioners”, com baixo e bateria mostrando sua técnica esmerada sob uma agressividade que mostra uma das influências mais sensíveis do quarteto, que é o trabalho do MOTORHEAD, assim como a sinuosa e com momentos mais introspectivos “Five Magics”, onde os vocais e guitarras estão muito bem. A curta “Poison Was the Cure” mais uma vez mostra as cinco cordas de Dave “Junior” Ellefson detonando, sendo seguidas por riffs abusivamente agressivos, e aqui, a raiz Hardcore do grupo aparece mais evidentemente. O andamento desacelera e ganha corpo em “Lucretia”, uma canção bem pesada e com guitarras chamuscando a todos, mesmo com lindas melodias. A bateria mostra mais uma vez sua técnica e peso na clássica “Tornado of Souls”, com uma pegada bem envolvente, refrão forte e um jeitão irresistível. Em “Dawn Patrol”, uma introdução focada em bateria e baixo, mais vocais sussurrados, que vai aclimatando o fã. E logo a bateria introduz a porradaria de “Rust in Peace... Polaris”, que logo começa a mostrar contrastes entre o azedume das partes quebradas do meio, e as melodias das pontes e agridoce refrão, mas sendo que no final, o lado Hardcore/Punk que é uma das raízes do grupo, surge. E na versão remaster de 2004, temos quatro faixas bônus: a inédita “My Creation”, além das versões Demo de “Rust in Peace... Polaris”, “Holy Wars... The Punishment Due” e “Take No Prisoners”. E foi graças ao sucesso de "Rust in Peace" e à desistência de David Lee Roth de se apresentar no Rock in Rio II que pudemos ver o quarteto pela primeira vez, na quarte-feira, 23/01/1991.

O nome “Rust in Peace”, conforme uma entrevista de Dave Mustaine em 1990, fez referência quando ele passou por um caminhão carregando vários mísseis balísticos intercontinentais UGM-27 Polaris, mas na placa do caminhão, o dizer: “que um dia todas as armas possam enferrujar em paz”, o que Dave aproveitou.

Que o desejo escrito no caminhão se torne verdade, e que ouçamos “Rust in Peace” em um clima de paz e harmonia entre os homens.


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