13 de jan de 2017

SEPULTURA - Machine Messiah (Álbum)


2017
Nacional

Tracklist:

1. Machine Messiah
2. I Am the Enemy
3. Phantom Self
4. Alethea
5. Iceberg Dances
6. Sworn Oath
7. Resistant Parasites
8. Silent Violence
9. Vandals Nest
10. Cyber God
11. Chosen Skin (Bônus - Versão Deluxe)
12. Ultraseven no Uta (Bônus - Versão Deluxe)


Banda:


Derrick Green – Vocais 
Andreas Kisser – Guitarras 
Paulo Jr. – Baixo 
Eloy Casagrande – Bateria 


Contatos:



Nota:

Originalidade: 10
Composição: 10
Produção: 10

10/10

Texto: Marcos “Big Daddy” Garcia


É comum associar-se o fato de uma banda ser experiente e ter renome com a reação desenfreada de muitos (ou seja, falamos do bom e velho “amo-ou-odeio” sem meio termo). Existem bandas que realmente sofrem ou uma perseguição implacável de seus detratores, ou são quase divinizadas pelos fãs. A causa disso, aparentemente, é a corrosão da paciência de sentar e ouvir um disco atentamente. Parece que a modernidade, a necessidade de estar atualizado com tudo que ocorre e que é enorme, erodiu tal conceito. 

Talvez isso seja o motivo maior de tanta polêmica e das opiniões desencontradas quando se fala de “Machine Messiah”, mais novo disco do SEPULTURA, que acaba de ser lançado.

A primeira coisa que se deve ter com o disco é paciência. Uma ou duas ouvidas são serão suficientes para uma compreensão mínima do que ele é, do que o disco representa e a que ele vem. Esse disco é como Vishnu, deus Hindu, que possui mil nomes e mil faces: possui tantas e ricas facetas que pode fazer com que qualquer abordagem unidimensional seja fracassada.

Sim, pois antes de tudo, “Machine Messiah” não é um disco simplório e nem tão pouco simples de ser assimilado. Não, de forma alguma, ele demanda paciência, uma vez que ele é sinuoso, rico em diferentes influências, com camadas e mais camadas musicais cheias de diferenças quase díspares, que somente uma banda do porte do SEPULTURA poderia ousar (e conseguir) fundir de forma coerente. E assim, criaram uma obra-prima em termos de Metal, com tudo o que faz parte da identidade musical do quarteto, e algo mais. 

É um passo adiante do que foi feito pelo quarteto em “Kairos” e “The Mediator Between Head and Hands Must Be the Heart”, um disco ousado e disposto a pôr o grupo de vez no mesmo patamar dos gigantes do Metal mundial.

A produção, mixagem e masterização do disco foram feitas no Fascination Street Studios, em Örebro, Suécia, com a produção feita pelas mãos do quarteto e de Jens Bogren (que já trabalhou com AMON AMARTH. SOILWORK, KATATONIA, MOONSPELL, ROTTING CHRIST, e outros). Este é um diferencial de “Machine Messiah”, uma vez que o disco soa pesado, intenso, com um impacto forte e claro. Sim, o nível de clareza é enorme, seja nos momentos mais introspectivos ou nos mais brutais. Mas não se preocupem: a agressividade do grupo, uma de suas características mais primordiais, está intocada.

A capa é de Camille Dela Rosa, uma artista filipina. Chamada “Deus Ex-Machina”, ela encerra em si todo o conceito de sociedade mecanizada, robótica, que por carecer de divindades visíveis e tocáveis, criará para si deuses cibernéticos. E ela, por ser uma pintura, dá um aquela sensação de algo orgânico ao disco.

Groove, modernidade, elementos de Hardcore, partes de Thrash Metal e mesmo de outros gêneros do Metal, influências quase tribais e de estilos regionais do Brasil são disponibilizadas em um leque amplo e diversificado de influências, algo bem difícil de ser digerido por aqueles que ainda vivem na fase entre “Schizophrenia” e “Arise”. 

Derrick está em sua melhor forma, cantando muito bem e usando vários timbres e formas de impostar a voz; Andreas continua um mestre em termos das seis cordas, sabendo soar diferenciado, com riffs de primeira e solos caóticos; Paulo está bem no baixo, pois está sabendo segurar bem o peso da base rítmica e marcar sua presença (como “Resistant Parasite”); e Eloy é mesmo um dos grandes mestres da bateria no país, sabendo dar diversidade e peso nas medidas certas. Juntem tudo isso, e se preparem para o massacre!

As 10 músicas de “Machine Messiah” são excelentes, mostrando o quanto uma banda pode ser criativa quando quer. Mas por mera referência, o massacre agressivo e cadenciadamente introspectivo de “Machine Messiah” (onde Derrick mostra uma forma de cantar excelente, passando pelo suave, o urrado e o vocal deprê cheio de efeitos sem nenhum pudor), a golfada Hardcore brutal e explosiva de “I Am the Enemy” (onde Paulo e Eloy proporcionam um massacre reto e direto, mas com alguns pequenos detalhes rítmicos muito interessantes), os toques regionais e teclados bem colocados na massacrante “Phantom Self” (cheia do Groove intenso e moderno que acompanha a banda há anos), as levadas técnicas da bateria e as guitarras caóticas em “Alethea” (os ritmos são quebrados, exigindo bastante da base rítmica), a multicultural instrumental “Iceberg Dances” (justamente onde a diversidade técnica das guitarras de Andreas fica mais evidenciada), a densa e sinuosa “Sworn Oath” e seus riffs certeiros e pesados (além do uso teclados em partes Thrash Metal, algo bem pouco usado), a moderna e trabalhada “Resistant Parasites” (aqui, algo de discos como “Chaos A. D.” e “Against” pode ser sentido, especialmente no Groove pesado e quase New Metal em alguns momentos), as rápidas e cheias de influências de Thrash Metal clássico “Silent Violence” e “Vandals Nest” (esta um pouco mais moderna e com alguns momentos mais técnicos, e mais uma vez, os vocais usam de uma gama de timbres fantástica), e fechando, a mecanicidade de “Cyber God”, que chega a beirar o Rock Industrial em alguns momentos, mas sem deixar de ser pesada e cheia de detalhes musicais quase que antagônicos. Para os que adquirirem a versão deluxe, existem dois bônus em “Chosen Skin”, que é brutal e opressiva, mas segue a dinâmica de todo o disco, e a irônica “Ultraseven no Uta”, em uma versão mais comportada e não tão extremada como o R.D.P fez há alguns anos, e que é o tema de “Ultra Seven”, seriado de 1967, criado por Eiji Tsuburaya e que tem enorme legião de fãs no Brasil.

Novamente: este autor comenta cada uma das faixas com uma motivação apenas: mostrar como cada faixa tem seu valor dentro da diversidade musical que o quarteto se revestiu com o passar dos anos.

Em suma: o SEPULTURA, mais uma vez, mostra-se uma banda corajosa e que soube se renovar, com muitos anos de carreira pela frente. Mas este autor torna a prevenir os caros leitores: “Machine Messiah” é um disco que requer paciência para ser assimilado dignamente.

Outro que vai estar no Top 10 de muitos no final de 2017.


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